Pesquisa de Opinião

O texto "A auto-suficiência", publicado em Palavras do Sacerdote, nos chama a atenção para um fato muito comum na sociedade moderna, onde os mais fracos e necessitados são esquecidos. Como cristãos como podomes mudar isso?
 
Como enteder a confissão dos pecados uns aos outros (Tg. 5,16) PDF Imprimir E-mail
Questões de Fé
“Confessai, pois, vossos pecados uns aos outros e rezai uns pelos outros, a fim de serdes curados”(Tg 5,16;Bíblia TEB).
(“Confitemini ergo alterutrum peccata [eksomologhéisthe oùn állelois tàs hamartías] et orate pro invicem, ut sanemini. Multum enim valet deprecatio iusti operans”).
 
Este versículo recapitula os três temas do anterior (v. 15): perdão dos pecados, oração e cura. O contexto era bem preciso: “Mande chamar os anciãos da Igreja [presbýterous tés ekklésias]...” (v. 14). Por “anciãos” entende-se os presbíteros ou sacerdotes. Já nos versículos 16-18 o autor não se dirige ao enfermo, mas aos cristãos que rodeiam o enfermo, como parece sugerir a partícula grega oún.
Alguns pensam que os vv. 14-15 e 16-18 formam um único bloco (há 10 apelos à oração em Tg 5,13-18), mas uma leitura atenta de cada trecho nos permite distinguir a sua diferença. Realmente toda esta passagem parece querer indicar os meios mais aptos para obter a saúde do enfermo. Mas enquanto que os primeiros falam do doente e da sua assistência pelo presbítero, já nos vv. 16-18 o autor convida os fiéis presentes ao redor dele (do doente) para que confessem seus pecados, a fim de que suas orações, brotando de um coração purificado, possam ser mais frutuosas diante de Deus. Já nos vv. 14-15 se sublinha o papel dos “presbíteros” da comunidade como instrumentos da graça divina em favor do enfermo.
Entre os judeus era costume confessar os próprios pecados para que a oração se tornasse mais eficaz. O poder da oração do justo é um tema bastante conhecido no Antigo Testamento (cf. Gn 18,22-32; Lv 5,5; Nm 5,6-7; Sl 145,18s; Prov 15,29; Jo 9,31). Todavia, para que a oração seja de boa qualidade e tenha poder diante de Deus, há de proceder de uma alma reta e justa. Jesus mesmo se lamentou em certa ocasião: Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim (Mc 7,6; cf. Is 29,13).  Paulo pedia essa atitude interior ao orar: “Assim, pois, quero que os homens orem em todo lugar, levantando as mãos santas, sem ira nem discussões. (1Tm 2,8)
Com esta finalidade, a espiritualidade rabínica recomendava com freqüência a confissão dos pecados (cf. J. Bonsirven, Le Judaisme palestinienne II p. 100). No Antigo Testamento se atesta a praxe da confissão pública (oral) das faltas:
“Se alguém pecar em um dos casos seguintes: (...) confessará o pecado cometido, levará a Iahweh, como sacrifício de reparação pelo pecado cometido, uma fêmea de gado miúdo (cordeira ou cabrita) em sacrifício pelo pecado; e o sacerdote fará por ele o rito de expiação, que o livrará do seu pecado” (Lv 5,1.5s; cf. Nm 5,7; Ne 9,2s; Os 14,2-4; Is 1,16-18; Sl 32,1-5); “Quem confessa [as suas faltas] e as abandona obterá perdão” (Prov 28,13); “Não te envergonhes de confessar os teus pecados...” (Eclo 4,26). Eloqüente é o episódio envolvendo Davi e Natã, no qual se dá uma declaração da falta e a mediação de alguém no perdão divino: “Davi disse a Natã: ‘Pequei contra Iahweh!’ Então Natã disse a Davi: ‘Por sua parte, Iahweh perdoa a tua falta: não morrerás” (2Sm 12,13; cf. Esd 10,1).  
 
Este costume da piedade judaica se conservou entre os primeiros cristãos, que se confessavam nas assembléias para se preparem melhor à oração: “Confesse as suas faltas na reunião dos fiéis, e não comece a sua oração com má consciência” (Didaqué 4,14); “Reúnam-se no dia do Senhor para partir o pão e agradecer, depois de ter confessado os pecados, para que o sacrifício de vocês seja puro” (Idem, 14,1). Note-se que a Didaqué – o primeiro catecismo cristão – retrata a tradição viva das comunidades cristãs do séc. I d.C. A Carta de Barnabé, datada dos anos 134-135 d.C., segue o tema dos “dois caminhos” presente na Didaqué, e alude também à confissão coletiva: “Não provoques divisão. Pelo contrário, reconcilia aqueles que brigam entre si. Confessa os teus pecados. Não te apresentes em má consciência para a oração” (19,12). De resto, 1Jo 1,9 também recomenda: “Se confessarmos nossos pecados, ele, que é fiel e justo, perdoará nossos pecados e nos purificará de toda injustiça” (cf. Lc 18,13s).
De que confissão se fala em Tg 5,16? O termo állelois (“mutuamente”) pode ter um sentido genérico ordinário e designar reciprocidade: “uns aos outros” (cf. Jo 13,14); mas, às vezes, também pode revestir um sentido relativo, restrito (cf. Ef 5,21). Neste último caso, o texto faria referência aos presbíteros, aqueles que têm a missão de perdoar os pecados em nome de Cristo, conforme alude o v. 15 (“e se tiver cometido pecados, estes serão perdoados”), à luz do mandato do Ressuscitado em Jo 20,21-23. Todavia, Tg 5,16 parece referir-se à comunidade. O autor faz referência a uma prática litúrgica ou espiritual, o que não é de se estranhar no cristianismo nascente, que freqüentemente se reunia para celebrar e rezar (cf. At 2,42). É, pois, uma confissão pública e em voz alta dos pecados, provavelmente dos pecados que podiam ser declarados sem grave inconveniente.
S. Agostinho (Tractatus 58 in Jn) e, mais tarde, o famoso Cardeal Cayetano (Notae in epist. S. Iacobi in h.l.) vêem em Tg 5,16 um piedoso costume de se acusar reciprocamente para obter o perdão dos demais. Outros autores (Pedro Lombardo, Alexandre de Hales, S. Alberto Magno, S. Boaventura, S. Tomás, S. Roberto Belarmino, Salmerón etc.) sustentam que o texto se refere à confissão sacramental. O Concílio de Trento, ainda que cite Tg 5,16 na sessão 14 (cap. 5: De confessione), não interpreta o texto neste sentido.
De Tg 5,16 talvez provenha o costume da confissão litúrgica pública (Confesso a Deus todo-poderoso e a vós irmãos e irmãs que pequei muitas vezes por pensamentos e palavras, atos e omissões, por minha culpa, minha tão grande culpa, e peço à Virgem Maria e a vós, irmãos e irmãs, que rogueis por mim a Deus, nosso Senhor.), que se recita no Ato penitencial da S. Missa e em outras ocasiões, bem como a confissão monástica (“Capítulo das culpas”) que se realiza mediante a acusação das culpas públicas ante o superior e toda a comunidade.
A Igreja sempre distinguiu essa confissão pública da confissão individual com o ministro. A primeira é um reconhecimento das faltas “menos graves”(“peccata quotidiana”, como diz Agostinho, tais como a maledicência, dureza para com o próximo, má acolhida dos mendicantes, etc). Enquanto que a segunda diz respeito “antes de tudo [mas não somente] para aqueles que (...) cometeram pecado grave [peccata capitalia]...” (Cat. da Igreja Católica, n. 1446), tais como: apostasia, homicídio, adultério, concubinato, fornicação, espetáculos lascivos ou cruentos, furto, aborto, falso testemunho, perjúrio, embriaguez habitual, ódio tenaz, etc.
Discute-se a datação da carta de São Tiago, bem como a sua autoria. Alguns autores identificam o seu autor com S. Tiago, “irmão do Senhor” (Mt 13,55p), cuja função tão marcante na primeira comunidade de Jerusalém (At 12,17 etc.) foi coroada pelo martírio por volta de 62 d.C. (segundo Josefo e Hegésipo). Outros, ao invés, dada a riqueza do vocabulário (grego) e outros detalhes, situam a composição a partir do final do séc. I d.C. Como quer que seja, aos poucos a comunidade cristã, assistida pelo Espírito Santo, foi-lhe reconhecendo o caráter inspirado. O autor nos fornece – a partir da literatura sapiencial e dos ensinamentos de Cristo – uma série de exortações morais sobre as provações e as tentações, o uso da língua, os relacionamentos e a oração.
Em síntese: o Novo Testamento nos pede o arrependimento sincero e a confissão integral das nossas culpas, o que se dá num primeiro momento em particular (na lógica de Mt 6,6), e depois tem o seu desdobramento necessário na confissão ao ministro ordenado (segundo Jo 20,21ss) e recomendável na confissão comunitária (segundo Tg 5,16). Isto constitui uma novidade em relação ao Antigo Testamento, seja no que diz respeito ao papel decisivo dos ministros (para as faltas graves, que ferem a comunhão com Cristo-Cabeça e com o seu Corpo, a Igreja), seja no que diz respeito à eficácia de ambos os gestos penitenciais (não é necessário o sacrifício de animais, já que Cristo os substituiu pela sua morte vicária, e é o fiel quem deve se acusar, o ministro não age em seu lugar). A certeza do perdão já aqui e agora é um dos maiores milagres da misericórdia divina em nosso favor!
 
Para conferir:
Bíblia: Tradução Ecumênica e A Bíblia de Jerusalém.
Biblia comentada. Texto de la Nácar-Colunga, VII, Epístolas católicas. Apocalipsis, Jose Salguero OP, B.A.C., Madrid, 1965, pp. 85s.
VV.AA. A carta de Tiago. Leitura sociolingüística. Ed. Paulinas, S. Paulo, 1991, p. 85.
 

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